sexta-feira, 26 de junho de 2015

AS DOUTRINAS DA GRAÇA


Uma exposição panorâmica das doutrinas relacionadas a salvação

Robson T. Fernandes

Durante muito tempo resisti falar sobre esse assunto em público, e de forma tão transparente como me proponho a fazer aqui. Por quê?

Não que tenha receio quanto a debates ou discordâncias, dado calor do assunto. Também não é por insegurança doutrinária e nem por indiferença quanto a importância do tema. A minha questão diz respeito ao fato que estou ciente de que nem todas as pessoas têm a paciência necessária para tratar do assunto e, muito mais, tenho receio de não saber usar as palavras adequadas para expor esta doutrina e por isso me tornar responsável por fazer com que uma das maiores joias preciosas da Sagrada Escritura seja escarnecida e tratada com desprezo por causa de minha incapacidade na escrita e minha insuficiência teológica e educacional. Não quero ser responsável por fazer com que a Bíblia seja escarnecida e nem o próprio Deus zombado e não compreendido por minha causa.

Uma das maiores razões para isso é que sou um admirador da Disciplina Arcana.

A Igreja primitiva tinha certo cuidado com a exposição das verdades bíblicas por diversas razões. Mas, dentre elas, estava o cuidado com a preservação de sua identidade, a preservação da integridade da doutrina e a boa instrução de seus discípulos. Daí, o cristianismo passa a adotar a Disciplina do Segredo, ou Disciplina Arcana, especialmente diante da perseguição.

A Disciplina Arcana é uma prática que impõe silêncio para os cristãos iniciados, não só com relação aos seus rituais, a exemplo do Batismo e Ceia, mas também com relação às doutrinas e crenças. Os estudos sobre essa disciplina têm sido realizados com mais frequência nos últimos anos e é o fundamento para a tradição oral secreta do Cristianismo. Talvez por isso Cristo tenha revelado as grandes verdades apenas em secreto aos Seus discípulos.

Ainda, é importante destacar que a Teologia Reformada não se resume apenas em crer nos chamados cinco pontos do Calvinismo, conhecidos como TULIP. A Teologia Reformada não se resume apenas à soteriologia (doutrina da salvação), mas diz respeito a todas as áreas da vida de um crente em Jesus Cristo. Ela nos guia nas relações pessoais, no estilo de vida privado e eclesiástico e na doutrina como um todo.


Os cinco pontos que resumem o pensamento reformado quanto a salvação não foram formulados por João Calvino[1], como alguns pensam, mas no Sínodo de Dort (Dordt ou Dordrecht). Na verdade, este Sínodo só teve início 54 anos após a morte de Calvino (1509-1564), e foi uma resposta ao crescimento do Arminianismo, que vinha ganhando espaço devido a um documento denominado de Remonstrance (Protesto) cujos adeptos ficaram conhecidos como remonstrantes. Esse documento havia sido formulado pelo teólogo Jacob Hermann[2] (1560-1609), posteriormente conhecido como Arminius (Armínio). Daí o nome Arminianismo. Como Armínio apresentou dúvidas em seus escritos quanto a graça soberana de Deus e isto estava influenciado muitos estudantes da época, o Sínodo de Dort, composto por 84 teólogos da Igreja Reformada Holandesa e mais dezoito representantes seculares, foi formado para responder as questões arminianas. Eles estiveram reunidos, ao todo, em 154 sessões, finalizando o trabalho no ano de 1619. Sobre isso D. Voelker afirma que:

O Sínodo de Dort foi realizado em Dordtrecht, Holanda (Países Baixos), em 1619, a fim de discutir a controvérsia doutrinária das igrejas reformadas holandesas. O Sínodo tinha o objetivo internacional de tratar da Teologia Reformada (muitas vezes rotulada de Calvinismo), porque as igrejas dos outros oito países enviaram seus representantes (delegados). O Sínodo reafirmou várias doutrinas calvinistas básicas e rejeitou os erros do Arminianismo, uma tendência teológica que destaca a habilidade humana de ganhar a salvação por si só. Observe que o acrônimo – TULIP – pode lhe ajudar a lembrar dos cinco pontos.[3]


Então, respondendo aos cinco pontos arminianos, o Sínodo de Dort apresentou os cinco pontos da Teologia Reformada, Calvinista, que é representado pela flor símbolo da Holanda, a tulipa (tulip em inglês) e que é um acróstico (TULIP), em que cada letra simboliza um dos pontos básicos da doutrina da salvação:

T    -      Total Depravity                        -      (Depravação Total)
U    -      Unconditional Election            -      (Eleição Incondicional)
L    -      Limited Atonement                  -      (Expiação Limitada)
I     -      Irresistible Grace                      -      (Graça Irresistível)
P    -      Perseverance of the Saints        -      (Perseverança dos Santos)


Ainda, Thiago McHertt apresenta uma tabela[4] em que expõe as referências bíblicas das Doutrinas da Graça, que são os temas bíblicos relacionados a este estudo: Soberania Exaustiva, Depravação Total, Eleição Incondicional, Expiação Particular, Chamado Eficaz e Preservação Eterna.


Para finalizar, é preciso esclarecer que estas doutrinas não foram fruto da criação humana, mas apenas a exposição daquilo que a Sagrada Escritura apresenta. E mais, diferentemente do que se pensa popularmente, estas não foram criadas por João Calvino, apesar deste conjunto de doutrinas ser chamado de Calvinismo. Este corpo de ensino, conjunto de doutrinas, foram ensinadas não apenas pelos apóstolos João, Pedro e Paulo, mas pelo próprio Jesus Cristo.


UMA MOSTRA BÍBLICA DAS DOUTRINAS DA GRAÇA

Em João 6:37 Jesus afirma que “todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora”. Isso significa que alguém só irá até Cristo, quebrantado e desejoso de salvação se o Pai celestial fizer com que isto aconteça. Este ensino é repetido no mesmo capítulo, versículo 44, quando Jesus afirma que “ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia”. Ainda, no versículo 65 Jesus repete essa verdade essencial, dizendo que “ninguém poderá vir a mim, se, pelo Pai, não lhe for concedido”.

Certa vez Jesus contou a parábola do semeador, mas ninguém entendia o significado dela, nem os discípulos e nem a multidão. As pessoas entendiam claramente que um agricultor havia deixado cair sementes à beira do caminho, mas o que isso significava é que ninguém entendia, nem mesmo os discípulos. Então os discípulos “perguntaram: Por que lhes falas por parábolas?” (Mateus 13:10). A resposta dada por Cristo é de deixar qualquer pessoa abismada, e essa resposta ainda fica mais clara no Evangelho de Marcos.

Ele lhes respondeu: A vós outros vos é dado conhecer o mistério do reino de Deus; mas, aos de fora, tudo se ensina por meio de parábolas, para que, vendo, vejam e não percebam; e, ouvindo, ouçam e não entendam; para que não venham a converter-se, e haja perdão para eles. (Marcos 4:11,12)

Em outras palavras podemos dizer que Jesus falou através de parábolas para que só aqueles que o Pai desejava entendessem, para que só eles fossem convertidos, e não todo o restante. Certamente alguém poderá argumentar que isto foi um caso específico e que também era o cumprimento da profecia de Isaías 6:9,10. Certamente isto é o cumprimento daquela profecia. Mas, mesmo assim, continua o fato de que a profecia se cumpre no fato de Deus querer que uns sejam salvos e outros não. Este fato permanece, sendo o cumprimento de uma profecia ou não.

Daí, surge a questão da morte de Jesus na cruz. Alguém poderá dizer: “mas Cristo não morreu por todos os homens?”. Esta é uma questão crucial, e a resposta bíblica é: não.

O profeta Isaías, no conhecido texto do capítulo 53 afirma algumas verdades que passam despercebidas, às vezes.

Primeiro, o profeta Isaías nos diz que Cristo não sofreu e nem morreu por causa de todos, mas “por causa da transgressão do MEU POVO, foi ele ferido” (Isaías 53:8).

Em segundo lugar, o profeta Isaías nos diz que Jesus, o Servo do Senhor, “o Justo, com o seu conhecimento, justificará a muitos, porque as iniquidades deles levará sobre si” (Isaías 53:11). Isto é, a Sua obra de redenção seria efetuada por muitos, não por todos, e que apenas a iniquidades desses muitos é seria levada sobre si, e não a iniquidade de todos.

Em terceiro lugar, o profeta Isaías nos diz que o Senhor Jesus “levou sobre si o pecado de muitos e pelos transgressores intercedeu”. Isto é, Ele levou sobre si o pecado destes muitos e intercedeu pelos transgressores. Mas, será que intercedeu por todos os transgressores? Certamente que não, especialmente porque veremos a seguir que a Sua intercessão em João 17 se refere àqueles que foram dados pelo Pai a Ele.

Então, a questão de Mateus 13 e Marcos 4 não diz respeito a capacidade humana natural para entender as coisas de Deus, especialmente porque até seus discípulos também não haviam entendido (Marcos 4:13). Se até os discípulos não estavam entendendo as coisas de Deus, o que dizer então daqueles que não nasceram de novo? Por isso que Paulo disse que “o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (1 Coríntios 2:14).

Mesmo aquele que nasceu de novo (João 3:3) também precisa do Senhor para entender a mensagem do Senhor (João 14:26), pois somente Ele pode trazer luz à mente do homem. Com isso, se o homem não entende a mensagem da salvação é porque o Senhor não quer revelá-la, e isto ocorre porque o Senhor não quer que tal pessoa seja salva, pelo menos naquele momento.

Na oração sacerdotal, a oração de intercessão de João 17, Jesus deixa transparecer essa verdade continuamente. Em 17:6 Ele revela que a Palavra de Deus foi revelada aos homens do mundo que Lhes foram dados pelo Pai, porque “eram teus, tu mos confiaste, e eles têm guardado a tua palavra”. Em 17:9, Cristo repete a ideia de que a oração intercessora não era feita em favor de todos os homens, mas por aqueles que Lhes foram dados pelo Pai. Em 17:11, reafirma que aqueles que Lhes foram dados pelo Pai precisavam ser guardados. Em 17:24, Jesus repete que a Sua vontade é que aqueles que Lhes foram dados pelo Pai estejam onde Ele está. Em todo o texto o Senhor Jesus Cristo revela esta verdade, dizendo, por exemplo, que aqueles que foram dados são guardados, protegidos por Ele (17:12); que a Palavra foi dada aos que foram trazidos pelo Pai até Ele (17:14); que os que são santificados na verdade são os que foram dados pelo Pai ao Filho (17:17); que os que são enviados de volta ao mundo são os que foram dados pelo Pai ao Filho (17:18); que Jesus se santifica não por todos, mas por aqueles que foram dados pelo Pai ao Filho e que por isso estes mesmos seriam santificados na verdade (17:19); que a Sua oração não era feita apenas pelos que estavam vivos naquela ocasião, mas por todos, no futuro, que seriam dados pelo Pai ao Filho e que por isso creriam (17:20).

Os apóstolos entenderam com tanta clareza os ensinos de Jesus, que repetiram essas mesmas verdades em seus ensinos. O apóstolo João revela aquilo que o profeta João Batista disse sobre o assunto: “O homem não pode receber coisa alguma se do céu não lhe for dada” (João 3:27). O apóstolo Pedro chama aqueles que forma predestinados de eleitos de Deus e revela que estes foram “eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e a aspersão do sangue de Jesus Cristo” (1Pedro 1:1,2).

Alguém ainda poderia afirmar que esta presciência de Deus implica em Deus saber o que irá acontecer e que, por isso, se prepararia de antemão para isto. Portanto, seria correto pensar que Deus já sabia quem desejaria crer e quem, por livre vontade, decidiria espontaneamente crer?

Não. Isto também não é correto, “porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade” (Filipenses 2:13). Se houve o desejo em alguém de buscar a salvação é porque o Senhor foi quem gerou este desejo, e após gerar este desejo o Senhor também abençoou esta pessoa com a capacidade espiritual de crer “porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2:8,9). A fé não vem de nós, é um dom de Deus. Por isso, só tem fé para a salvação quem é agraciado por Deus para isso.

Daí surge, naturalmente, a questão da soberania de Deus para a salvação.

Será que Deus tem esse direito?
Deus é injusto por isso?
A salvação depende de nós ou de Deus?
Se a salvação depende de Deus, temos o direito de nos revoltar contra o Senhor por isso?

Essas questões são respondidas pelo apóstolo Paulo no livro de Romanos, e essa é exatamente a coroa de ouro deste livro, o capítulo 9.

Como está escrito: Amei Jacó, porém me aborreci de Esaú.
Que diremos, pois? Há injustiça da parte de Deus? De modo nenhum!
Pois ele diz a Moisés: Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão.
Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia.
Porque a Escritura diz a Faraó: Para isto mesmo te levantei, para mostrar em ti o meu poder e para que o meu nome seja anunciado por toda a terra.
Logo, tem ele misericórdia de quem quer e também endurece a quem lhe apraz.
Tu, porém, me dirás: De que se queixa ele ainda? Pois quem jamais resistiu à sua vontade?
Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?! Porventura, pode o objeto perguntar a quem o fez: Por que me fizeste assim?
Ou não tem o oleiro direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro, para desonra?
Romanos 9:13-21

Entendemos que estas questões são complicadas demais para a mente humana, afinal de contas somos meros humanos, falhos, limitados e pecadores tentando entender como a mente de Deus funciona. Então, já pensou na dificuldade que temos?

“Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro?” (Romanos 11:33b,34)

Diante de tudo o que foi exposto só nos resta entender e aceitar que se não nos aproximarmos da Sagrada Escritura com um coração humilde e completamente reverente diante do Senhor Soberano encontraremos uma barreira intransponível. Ainda, diante de tamanha dificuldade de entender e mais ainda de aceitar a Soberania de Deus, está o fato de que, apesar destas coisas serem difíceis para nossa mente, elas são bíblicas. Por isso, não podemos pensar que podemos ou devemos viver sem nos preocupar com elas, como se não fossem importantes. Precisamos lembrar que estas verdades são reveladas na Sagrada Escritura porque o Senhor deseja que as conheçamos para O conhecermos melhor. Por isso “conheçamos e prossigamos em conhecer ao SENHOR; como a alva, a sua vinda é certa; e ele descerá sobre nós como a chuva, como chuva serôdia que rega a terra” (Oseias 6:3). Não podemos, apesar da dificuldade do assunto, viver como se elas não existissem. Se fizermos isso estaremos agindo como quem não deseja escutar aquilo que Deus está falando.

Que o Senhor nos ajude.





[1] João Calvino foi um francês muito influente na Reforma Protestante. Devido as perseguições católicas aos protestantes teve que deixar a França e fugir para Genebra, em 1536. Ali estabeleceu seu ministério.

[2] Jacob Hermann (Jacó Armínio) foi um teólogo natural do Reino dos Países Baixos, Holanda (neerlandês) da época da Reforma Protestante. Trabalhou em 1603 como professor de teologia na Universidade de Leiden, e escreveu muitos livros e tratados sobre teologia; sua visão tornou-se a base do arminianismo e do movimento Remonstrante.

[3] The Five Points of Calvinism (From the Synod of Dort, 1619). Disponível em: http://www.historytools.org/sources/dort-5-points-calvinism.pdf. Acesso em 25 jun 2015.

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