quinta-feira, 28 de novembro de 2013

LOGOS E RHEMA: Palavra de Deus e palavra falada?


Uma explicação bíblica do uso dos termos na Sagrada Escritura e na Igreja

Robson T. Fernandes

INTRODUÇÃO

Um dos principais pilares utilizados pelo Movimento da Fé é a ideia da Confissão Positiva. Ou seja, o ensino de que as palavras do homem têm poder. Aqueles que defendem o ensino de poder nas palavras naquilo que é dito e confessado, utilizam os termos gregos “logos” e “rhema” para tentar fundamentar a sua posição. Esses termos gregos têm sido utilizados, pelo Movimento da Fé, com a seguinte conotação: 1) Logos: Seria a Palavra escrita, a Palavra revelada de Deus; 2) Rhema: seria a palavra dita, palavra falada. Este segundo termo, Rhema, é visto como a palavra de fé, a confissão verbal, que supostamente traz à existência todas as coisas do mundo espiritual.


O autor neopentecostal e adepto da Confissão Positiva, Billy Joe Daugherty, afirma o seguinte:

Os dois vocábulos gregos para Palavra de Deus são logos e rhema. Logos significa a palavra escrita, e rhema, a Palavra falada. A espada do Espírito, citada em Efésios 6.17, refere-se à Palavra de Deus falada.
Até que a Palavra seja liberada pela sua boca, você não derrotará o diabo. (DAUGHERTY, 2004, p.96)[1]

Ainda, o conhecido Kenneth Hagin[2] fez a seguinte declaração:

O Senhor Deus é um Deus de fé. Tudo o que tinha a fazer, fê-lo pela Sua Palavra. Ele, por exemplo, disse: Haja luz e houve luz. Deus criou todas as coisas por intermédio de sua Palavra, exceto o homem. Realmente, o Senhor Deus é a palavra de fé. De igual modo, criou o homem: um homem de fé. Por isso, o ser humano pertence à mesma categoria de Deus. Um homem de fé vive no domínio criativo de Deus. Quem pode negar esta verdade? (ZOE, s/d, p.51)

Dessa forma, para o Movimento da Fé, a Palavra escrita de Deus só terá poder de fato quando o homem confessá-la com a sua boca, quando Ela for falada com fé. Por isso que Billy Joe Daugherty [3]falou: “É a Palavra de Deus em seus lábios que fará com que o diabo saia!” (Idem, p.96). Ainda, fez a seguinte declaração:

A fé que você tem, mesmo que seja invisível, pode trazer coisas ao reino visível da sua vida. A fé está no seu coração e é liberada pelas suas palavras. Então, sua fé, assim como Deus, pode trazer o invisível ao reino visível.
Deus chamou à existência coisas que não eram como se fossem. O que você quer na sua vida? Comece a chamar tais coisas. O que deseja? O que Deus lhe está dizendo? É hora de exteriorizar isso. (Idem, p.101)[4].

Esse ensino, inicialmente organizado por E. W. Kenyon e disseminado por Kenneth Hagin, tem se tornado cada vez mais popular, e hoje não se encontra restrito apenas aos círculos neopentecostais, mas também em diversas denominações das mais variadas linhas teológicas.

E. W. KENYON

Essek William Kenyon (E. W. Kenyon) foi um pastor, evangelista e escritor norte americano da Igreja Batista Nova Aliança. Nasceu em 24 de abril de 1867 e faleceu em 19 de março de 1948. É considerado o fundador da Teologia da prosperidade.

Seus livros tiveram grande influência sobre Kenneth E. Hagin, fundador do Movimento Palavra de Fé, sendo uma inspiração ideológica para o referido Movimento que culminou nas evoluções filosóficas dos neopentecostais. Também inspirou Don Gossett, autor de diversas obras, e ainda nos tempos modernos seus livros e idéias são muito difundidas fora do movimento pentecostal. E. W. Kenyon teria sido o primeiro autor a publicar sobre o que se tornou a Teologia da Prosperidade[5]

KENNETH HAGIN

Kenneth Erwin Hagin foi um americano nascido em 20 de agosto de 1917 e falecido em setembro de 2003, vítima de complicações cardíacas. Foi discípulo do E. W. Kenyon, o verdadeiro fundador do Movimento da Fé, muito embora Hagin seja considerado o pai deste Movimento.

Suas doutrinas envolvem a crença no poder das palavras, Teologia da Prosperidade, crença que filhos de Deus fiéis não adoecem etc. Foi o criador da escola Rhema nos Estados Unidos, que se espalhou por todo o mundo. Influenciou diversos líderes e tornou-se a figura mais conhecida no meio evangélico devido aos seus ensinos. Escreveu mais de 50 livros, entre eles: A Arte da Intercessão, A Autoridade do Crente, Compreendendo a Unção, Chaves Bíblicas para a Prosperidade Financeira, Como Liberar a Sua Fé, Curso de Estudos da Fé Bíblica, O Nome de Jesus, Pensamento Certo ou Errado, Redimidos, Seguindo o Plano de Deus, 7 passos vitais para receber o Espírito Santo, Zoe: A Própria Vida de Deus, O Toque de Midas.


A HISTÓRIA DA CONFISSÃO POSITIVA

MAHARISHI MAHESH YOGI

Em meados do século XX o mundo estava com a sua atenção voltada para o movimento pela independência da Índia, especialmente com o surgimento público de Mahatma Gandhi. Talvez, a atenção do mundo voltada à Índia e ao “testemunho” de Gandhi tenham sido alguns dos fatores que mais colaboraram com a receptividade do hinduísmo no Ocidente, principalmente com a chegada de Maharishi Mahesh Yogi.

Maharishi, um indiano nascido em 12 de Janeiro de 1918 e falecido em 5 de Fevereiro de 2008, foi um guru hindu e fundador da Meditação Transcendental, que é uma técnica hindu de meditação através do uso mental de sons específicos. Acredita-se que esses sons produzem efeitos psicológicos, e são conhecidos como mantras.

A partir de 1959 Maharishi começou a divulgação deste tipo de meditação com a sua chegada em San Francisco, tornando-a cada vez mais popular, especialmente pela aceitação que teve entre alguns membros da alta sociedade norte-americana. Rapidamente tornou-se um grande sucesso.

Maharishi Mahesh Yogi e os Beatles
No início da década de 1960, Maharishi inicia a introdução da Meditação Transcendental na Inglaterra com a ajuda do Dr. Francis Roles da Study Society, que posteriormente o abandonou. Porém, em 1967 George Harrison, um dos integrantes do Grupo The Beatles, é introduzido no ensino desta meditação, atraindo a sua atenção e tornando-a cada vez mais popular e aceita. Rapidamente, milhares de jovens e hippies aderiram às suas práticas e as palestras de Maharishi eram cada vez mais populares.

Em 1968, os Beatles viajaram com Maharishi até à sua Academia de Meditação em Rishikesh, nos Himalaias, na companhia de outras celebridades como Mia Farrow, Donovan e Mike Love dos Beach Boys.
Os Beatles relaxaram, meditaram, mas também, ao que parece, consumiram drogas leves, sem o conhecimento de Maharishi. Segundo reza a história, foi um dos períodos mais produtivos de John Lennon, que escrevia várias canções por dia, que mais tarde fariam parte do White Album. (WIKIPÉDIA, s/d, Online)[6]

A partir da década de 1960 o hinduísmo se tornava cada vez mais popular no Ocidente, que começou a experimentar a chegada cada vez mais frequente de gurus hindus.

Em 1966, o indiano Bhaktivedanta Swami Prabhupada fundou, em Nova York, nos Estados Unidos, a Sociedade Internacional para Consciência de Krishna, mais conhecida como movimento Hare Krishna. Na mesma década, a filosofia hindu se espalhou pelos países ocidentais, divulgada pelos hippies e por artistas como os Beatles e Santana. (WIKIPÉDIA, s/d, Online)[7]

Com tudo isso, as práticas hindus, como Meditação Transcendental, ocultismo, yoga do riso e a crença no poder das palavras se tornaram cada vez mais populares.

Por exemplo, o mantra mais importante no hinduísmo é o Om. Ensina-se que este som pronunciado nas meditações religiosas hindus “contém o conhecimento dos Vedas”. Dizem que esta palavra de poder “é o som do universo e a semente que “fecunda” os outros mantras” (WIKIPÉDIA, s/d, Online)[8]

Podemos citar como exemplo do misticismo envolvido na questão, o artigo de Marilu Martinelli, no site do Instituto de Pesquisas Projeciológicas e Bioenergéticas, que se dedica ao estudo místico de Experiências Fora do Corpo, Auras e Chácras, e que foi publicado na revista Sexto Sentido:

Nossa voz revela quem somos; quando falamos, criamos som, ritmo, melodia e harmonia ou desarmonia onde antes só havia silêncio. É preciso ter consciência do poder das palavras e da intervenção energética causada por elas. Além do mais, as palavras são dotadas de poderes energéticos criadores e podem nos ajudar a estabelecer um diálogo entre mentes e almas para transformar e ou recriar realidades [...]
FALAR É UM PARTO SONORO QUE PERMITE A MANIFESTAÇÃO DO PENSAMENTO e do sentimento pela emissão de sons organizados, modulados e movidos pela vontade, direcionados pela intenção. A intenção é a alma da vontade, e concede brilho e força construtiva ou destrutiva às palavras. (IPPB, s/d, Online)[9]

Ainda, no livro Os Fundamentos do Hinduísmo, de Swami Bhaskarananda, encontramos o seguinte sobre a adoração no hinduísmo:

A adoração começa com a purificação. Todos os itens usados na adoração devem ser purificados em pensamento pelo adorador. Palavras sagradas associadas a Deus, chamadas de mantras, são repetidas pelo adorador juntamente com pensamentos  de purificação [...] “Você não acredita no poder das palavras, mas veja o poder da palavra ‘tolo’ – e que forte efeito teve em você! E ainda assim você nega o poder dos mantras?”[10]

Em toda a história da Igreja, desde os apóstolos até o século XIX ninguém na história da Igreja acreditava ou ensinava que palavras têm poder. Esse ensino só começou a surgir no meio evangélico após a chegada de Maharishi Mahesh Yogi, um guru hindu e líder espiritual do Beatles, que trouxe as práticas hindus para o Ocidente popularizando-as, e só a partir daí passou-se a acreditar, aqui no Ocidente, que as palavras têm poder. Depois disso esse pensamento começou a ser infiltrado na Igreja.

Por isso que os líderes do Movimento da Fé dizem que receberam uma “nova revelação”. De fato esse assunto é uma nova revelação, exatamente porque ninguém na história da Igreja ensinou isso. E já que se trata de um ensino novo no meio evangélico podemos dizer que realmente é uma nova revelação.

Portanto, historicamente falando, a crença de que palavras têm poder tem origem no Hinduísmo (Budismo, Krishnaísmo) e não no Cristianismo, e muito menos em um cristianismo bíblico.

Em resumo, o hinduísmo começa a ser introduzido no Ocidente por volta da década de 1960, e só no final da década de 1970 é que começa a ter início no meio evangélico a ideia de uma Confissão Positiva, o que mostra a sua origem e influência.

O CENTRO DE TREINAMENTO RHEMA, DE KENNETH HAGIN

Kenneth Hagin fundou a International Convention of Faith Churches and Ministers no final da década de 1970. Na ocasião, a Convenção contou com a participação de Lester Sumrall, Jerry Savelle, Fred Price, Ray McCauley e Reinhard Bonnke. No ano de 1974, fundou o Rhema Bible Training Center, em Oklahoma, juntamente com seu filho Kenneth Hagin Jr.

O Centro de Treinamento Bíblico Rhema (CTBR) é uma instituição cristã de ensino teológico, de caráter interdenominacional. A sede do CTBR está localizada em Broken Arrow na cidade de Tulsa, Oklahoma (EUA). Existem seis concentrações ministeriais especializadas no Ministério Infantil, Ministério Jovem, Evangelismo, Trabalho Pastoral, Missões e Sustentação à Missões.
Foi fundada pelo Reverendo Kenneth Hagin juntamente com seu filho, Kenneth Hagin Jr., no ano de 1974, após a morte do reverendo em 2003 seu filho assumiu a presidência da instituição.
Os centros de treinamento bíblico Rhema estão localizados na Austrália, Brasil, Colômbia, Alemanha, Índia, Indonésia, Itália, México, Peru, Romênia, Singapura, África do Sul, na Oceania e na Tailândia. Aqui no Brasil, há mais de 30 centros de treinamento do Rhema, o líder do Rhema Brasil é o apóstolo Bud Wright, também presidente da Igreja Evangélica Verbo da Vida. (WIKIPÉDIA, 2012)[11]

Iniciado nos Estados Unidos, o Centro de Treinamento Bíblico Rhema tem sido o principal meio utilizado para a expansão dos ensinos do Movimento da Fé de Kenneth Hagin, o que inclui o ensino da Confissão Positiva.

No Brasil, o Rhema foi trazido pelo norte-americano Bud Wright, fundador da Igreja Evangélica Verbo da Vida, e que faleceu no dia 07 de novembro de 2013, vítima de complicações nos rins e coração devido à diabetes.


LOGOS E RHEMA

Aqueles que defendem o pensamento do Movimento da Fé afirmam que a palavra “Logos” significa “a palavra escrita de Deus”, enquanto que a palavra “Rhema” significa “a palavra falada”. Portanto, o Rhema seria a palavra de fé falada, confessada.

Para os adeptos desse Movimento, se a Palavra escrita (Logos) for confessada com fé (Rhema) poderemos mover o sobrenatural. Por isso, a Palavra escrita (Logos) de nada adiantará se não houver o Rhema, palavra falada. Dessa forma, o poder da Palavra de Deus, escrita (Logos), só se manifesta na dependência do Rhema, palavra falada na boca do ser humano. Daí, surge a necessidade de se afirmar que aquele que professa a Palavra de Deus com fé tem poder para fazê-la “funcionar”, e por isso o homem é um pequeno deus.

Essa é exatamente a ideia de todos aqueles que exercem influência no Movimento da Fé, a ideia de que somos pequenos deuses. Vejamos o que alguns desses personagens têm a dizer:

Kenneth Hagin:
[...] o ser humano pertence à mesma categoria de Deus.[12]

Jesus foi primeiramente divino e depois humano. E, na carne, Ele foi um ser divino-humano. Quanto a mim, fui primeiramente humano como você, mas eu nasci de Deus. E, desta maneira, tornei-me num ser humano-divino![13]


Earl Paulk:
Até que compreendamos que somos pequenos deuses e comecemos a agir como pequenos deuses, não podemos manifestar o reino de Deus.[14]


Kenneth Copeland:
Não se preocupe quando as pessoas o acusarem pelo fato de você achar que é  Deus... Elas também me crucificaram porque eu disse que era Deus; mas eu não disse que era Deus, apenas falei que andava com Ele e que Ele estava em Mim. Aleluia![15]

Benny Hinn:
Cristãos são pequenos messias, são pequenos deuses[16]

O novo homem é como Deus, divino, completo em Cristo Jesus, a nova criação é exatamente como Deus. Posso dizer assim, você é um pequeno deus caminhando na Terra.[17]

Paul E. Billheimer:
[...] mediante o novo nascimento – e falo reverentemente – tornamo-nos o “parente” da Trindade, uma espécie de “extensão” da Divindade.[18]





Portanto, a ideia hindu e gnóstica de que as palavras têm poder tem sido colocada dentro da Igreja com o uso distorcido do termo Rhema, e mais, foi exatamente essa a mensagem que a serpente disse à Eva, no Jardim do Éden:

Então, a serpente disse à mulher: É certo que não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, COMO DEUS, sereis conhecedores do bem e do mal (Gn 3:4,5 – Revista e Atualizada)

Então, a serpente disse à mulher: Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, se abrirão os vossos olhos, e SEREIS COMO DEUS, sabendo o bem e o mal. (Gn 3:4,5 – Revista e Corrigida)

Disse a serpente à mulher: "Certamente não morrerão! Deus sabe que, no dia em que dele comerem, seus olhos se abrirão, e VOCÊS SERÃO COMO DEUS, conhecedores do bem e do mal"(Gn 3:4,5 – NVI)

Para os seguidores do Movimento da Fé, quando alguém diz que fala com autoridade para outra pessoa porque confessa algo com palavras (Rhema), ele é vista como alguém espiritual. Mas, quando alguém diz que fala com autoridade para outra pessoa porque a Sagrada Escritura (Logos) determina isso, ele é visto como carnal, não espiritual e “seco”. Portanto, a Bíblia por si só não é suficiente para a vida dessas pessoas, e é exatamente por isso que muitos estudiosos afirmam que para os seguidores do Movimento da Fé o Rhema transformou-se num substituto da Sagrada Escritura, ou, no melhor dos casos, em um suplemento para a Palavra de Deus, um complemento.

Por tudo isso, o Movimento da Fé transforma um simples termo grego, Rhema, em uma coluna que sustenta todo prédio da Confissão Positiva. Por essa razão, devemos ver no grego o significado desses dois termos.

O termo grego Logos significa:

Logos – palavra, como falada, alguma coisa falada; também razão, como manifestando-se na capacidade da fala [...] tanto o ato da fala quanto a coisa falada [...] não no sentido gramatical como “epos” e “rhema”, mas como proferida pela voz viva, um falar, fala, elocução [...] Também “o logos tou Theou”, a palavra de deus, sua voz onipotente, decreto, 2Pe 3:5,7. (ROBINSON, 2012, p.544)[19]

Logos – palavra, assunto sob discussão, matéria, coisa, ponto, tema, queixa, declaração, asserção, afirmação. Questão, oração, pregação, profecia, ordem, história, relato, proclamação, instrução, ensino, mensagem, discurso, exortação, verbo, palavra de Deus, palavra de Deus personificada = Jesus. (GINGRICH; DANKER, 2000, p.127)[20]

Logos – palavra (não vocábulo mas linguagem que encerra ideia); ensino, preceito, falar, conversa, conta, o caso, pergunta, coisa, fama, notícia, livro, ministério, motivo, razão, questão, queixa, discurso, pregação, relação, aparência, doutrina, especificamente a doutrina concernente ao alcance no reino de Deus da salvação por Cristo. (TAYLOR, 1991, p.128)[21]

O termo grego Rhema significa:

Rhema – aquilo que é falado, palavra, dito [...] uma palavra, como proferida de viva voz [...] um depoimento, fala, discurso. (ROBINSON, 2012, p.814)[22]

O substantivo rhema significa “aquilo que deliberadamente se diz”:  uma “palavra”, “expressão vocal” [...] rhema, “palavras”, “expressão vocal”, é frequentemente sinônimo de logos [...] Frequentemente é a “palavra de Deus”: uma única “expressão vocal” (Ex 19:6), um “mandamento” (Dt 13:1), a “palavra criadora” (Dt 8:3), ou um “oráculo de orientação” (1Sm 3:1) [...] rhema, “palavra”, também pode ser empregada para o processo da inspiração (Nm 23:5,6) [...]
No NT o termo rhema ocorre 67 vezes [...] ao passo que logos muitas vezes pode designar a proclamação cristã como um todo no  NT, rhema usualmente diz respeito a palavras e expressões vocais individuais: o homem terá que prestar contas por toda palavra injusta (Mt 12:36); Jesus não respondeu palavra alguma a Pilatos (Mt 27:14); os seres celestiais falam palavras inefáveis (2Co 12:4). (COENEN; BROWN, 2009, p.1535,1537)[23]

Rhema – aquilo que é dito, palavra, dito, expressão, ameaça, coisa, objeto, assunto, evento. (GINGRICH; DANKER, 2000, p.184)[24]

Rhema – palavra (falada), dizeres, expressão ocncreta de logos; daí, o assunto de que se fala, questão, coisa, caso, negócio; palavra de Deus, solene mensagem divina; o evangelho, o ensino cristão; a confissão cristã, ‘Jesus é o Senhor’, que conduz à salvação e precede o batismo. (TAYLOR, 1991, p.194)[25]

Quando o Movimento da Fé utiliza os termos Rhema e Logos com significados e aplicações diferentes está, na verdade, distorcendo o verdadeiro significado no grego, pois como já pudemos ver os dois termos, Logos e Rhema, não possuem sentidos e nem aplicações diferentes. É exatamente isso que declara o Dr. Paulo Romeiro quando publicou a sua conversa com o Dr. Russel Shedd[26]:

Conversando sobre esse assunto no início de 1991 com o dr. Russell Shedd (uma das maiores autoridades em Novo Testamento no Brasil), ele comentou que o apóstolo Pedro não fez distinção entre esses dois termos quando escreveu 1 Pedro 1:23-25:

... pois fostes regenerados não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a palavra [logos] de Deus, a qual vive e é permanente. Pois toda a carne é como a erva, e toda a sua glória como a flor da erva; seca-se a erva, e cai a sua flor; a palavra [rhema] do Senhor, porém, permanece eternamente. Ora, esta é a palavra [rhema] que vos foi evangelizada.

Esta passagem é uma citação de Isaías 40:6-8. Na Septuaginta, a versão grega do Antigo Testamento, o termo grego para “palavra” é rhema (v.8). Isso confirma o fato de que Pedro considerava logos e rhema palavras sinônimas. (ROMEIRO, 2007, p.49,50)

Edward Robinson afirma que o termo “rhema” pode ser utilizado para se referir a uma “acusação, denúncia”, “uma predição, profecia”, “uma promessa”, “uma ordem, palavra de Deus, seu decreto onipotente” (ROBINSON, 2012, p.815). Ainda, para Robinson, essa palavra só está relacionada a poder quando se refere a Deus, “ou seja, de todas as coisas que Deus supre por intermédio de sua palavra criativa, citação de Dt 8:3)”. Isto é, não existe um “rhema” poderoso ou criativo na boca do homem, mas apenas na boca de Deus. Portanto, afirmar que rhema é uma palavra de poder na boca do homem e que pode gerar coisas no mundo espiritual é distorcer o verdadeiro sentido da palavra no grego e buscar usurpar aquilo que só pertence ao Senhor Deus.

Tudo isso é, ainda, confirmado pelo Strong's Hebrew and Greek Dictionary, que apresenta as seguintes definições para Logos e Rhema.

Definição Nº 1
            Logos: Fala.
            Rhema: Fala, discurso.
Definição Nº 2
            Logos: Palavra.
            Rhema: Palavra.
Definição Nº 3
            Logos: Proferir à viva voz.
            Rhema: Proferir à viva voz.
Definição Nº 4
            Logos: Discurso, fala.
            Rhema: Fala, discurso.
Definição Nº 5
            Logos: Algo falado.
            Rhema: Algo falado.
Definição Nº 6
            Logos: Decreto, mandato, ordem.
            Rhema: Comando.
Definição Nº 7
            Logos: Narrativa.
            Rhema: Narrativa.

Dessa forma, não existe nenhuma base sólida, confiável ou recomendada para se afirmar que Logos é apenas a palavra de Deus escrita, e que Rhema é apenas a palavra falada. Não existe nenhum base sólida para fazer distinção entre ambas e muito menos que esta palavra na boca do homem tenha algum tipo de poder. Ao contrário, se os seguidores do Movimento da Fé quisessem um argumento mais sólido, deveriam ter utilizado a palavra Logos e não Rhema, já que Logos é utilizado com mais frequência para se referir a Palavra de Deus. Enquanto o termo Logos aparece 330 vezes no NT, Rhema aparece 70 vezes.

Por isso podemos afirmar que esse ensino do Movimento da Fé não encontra base na Escritura e nem na história da Igreja de Jesus Cristo, e sim no hinduísmo e na distorção da Verdade, com origem na Serpente de Gênesis 3:4,5.

O PODER DAS PALAVRAS

Existe poder em nossa língua? Algumas pessoas insistem em afirmar que sim. Porém, antes de prosseguirmos, precisamos fazer alguns esclarecimentos necessários, para evitarmos confusões e mal entendidos sobre o assunto que estamos tratando.

Em primeiro lugar, é preciso distinguirmos a Palavra de Deus (Bíblia) e as palavras pronunciadas por um ser humano. Nenhum cristão em sã consciência ousaria dizer que a Palavra de Deus (Bíblia) não tem poder. Claro que tem, pois esta é a Palavra de Deus (Bíblia). A nossa crítica, então, não diz respeito a Palavra de Deus (Bíblia), mas ao ensino de que as palavras pronunciadas por um ser humano têm poder. A nossa negação se refere à palavras na boca do homem, e não a Palavra de Deus (Sagrada Escritura, Bíblia Sagrada).

Em segundo lugar, entendemos que palavras ditas de forma errada podem magoar, ferir ou machucar alguém. Com isso, uma pessoa pode ser afetada emocionalmente com uma “palavra” dita na hora errada e de forma errada. Por exemplo, uma criança pode ser traumatizada emocionalmente pelos seus pais devido a xingamentos e desvalorizações. Esta criança pode crescer traumatizada por causa de uma criação errada. Mas, isso não diz respeito ao mundo espiritual, como pretendem os seguidores do Movimento da Fé. Uma coisa é ser ferido emocionalmente, outra coisa – totalmente diferente – é afirmar que as palavras de um filho de Deus podem trazer a existência coisas que não existem e produzir efeitos miraculosos.

Portanto, que fique bastante claro, mais uma vez, que em nenhum momento estamos afirmando que a Palavra de Deus não tem poder e nem que pessoas, incluindo crianças, não são afetadas emocionalmente por palavras duras e desmedidas.

EXPLICANDO PROVÉRBIOS 18:21

Um dos textos muito utilizados para se defender o suposto poder das palavras está em Provérbios 18:21:

A morte e a vida estão no poder da língua; o que bem a utiliza come do seu fruto (Pv 18:21).

Como podemos entender essa passagem bíblica? Especialmente quando o Movimento da Fé afirma que esse texto nos dá respaldo para acreditarmos que há poder em nossas palavras e que podemos mover o mundo espiritual com as nossas palavras de confissão positiva?

Para entender o versículo 21 devemos ler desde o versículo 19. Vejamos:

O irmão ofendido resiste mais que uma fortaleza; suas contendas são ferrolho de um castelo. Do fruto da boca o coração se farta, do que produzem os lábios se satisfaz. A morte e a vida então no poder da língua; o que bem a utiliza come do seu fruto. (Pv 18:19-21)

Normalmente os adeptos da confissão positiva utilizam apenas a metade do versículo 21 para defender que palavras têm poder no mundo espiritual, e esquecem até do resto do versículo, que diz assim: "o que bem a utiliza come do seu fruto".

Surgem, então, duas perguntas: 1) O que bem a utiliza? Utiliza o quê?; 2) Que fruto?

1) O que utiliza bem a língua! Mas o que significa isso? Exatamente o que diz o versículo 19, que é ter cuidado com o que fala para não ofender ou magoar o irmão. Um irmão magoado tem o seu coração como as portas de um castelo fechado com ferrolhos (versículo 19).

O versículo 20 nos diz que a pessoa que têm boas palavras é agradável e no final das contas "a boca fala do que está cheio o coração" (Lc 6:45b). Por isso Romanos 10:15 diz que os pés de quem anuncia as boas novas são formosos. Pessoas que têm boas palavras são agradáveis.

Agora vem a pergunta do versículo 21: Que fruto?

2) A pessoa que não cuida da maneira de falar magoará os irmãos e colherá irmãos que terão, contra si mesmo, um coração fechado como as portas de um castelo trancado com ferrolhos.

Portanto, o texto de Provérbios, em seu contexto completo, não está falando que as palavras têm poder no mundo espiritual, como muitos afirmam.

Ainda, precisamos lembrar do que está escrito em Tiago 3, sobre a língua. Que está no mesmo contexto.

A língua carrega veneno mortífero (Tg 3:8). Por quê? Porque ela incendeia uma floresta e põe a perder todo o corpo. Ela magoa e agride o próximo.

É nesse contexto que os escritores bíblicos falam do poder da língua. É o poder de alegrar um coração ou gerar uma grande confusão, magoando pessoas queridas e ferindo quem não precisa ser ferido.

Dependendo do que nós dizemos, podemos gerar uma confusão tão grande que isso pode levar uma pessoa contra a outra, podendo até gerar uma morte. Ou, podemos apaziguar uma situação, evitando uma tragédia. Por isso a vida e a morte estão no poder da língua.

Isso é a sabedoria colocada em prática.

Em nenhum dos textos a Bíblia nos diz que podemos mover o mundo espiritual com nossas palavras, ou que podemos gerar algo no mundo espiritual com nossas palavras. Quem move o mundo espiritual é o poder de Deus.

CONSELHO: Querido leitor, lembre quando for esclarecer alguém sobre esse assunto, de lhe pedir para que atente para a passagem bíblica por completo, e não apenas para a metade de um versículo. Ainda, peça que o mesmo faça associações com outras partes da Bíblia para não isolar um texto, pois a Bíblia explica a própria Bíblia.

CONCLUSÃO

Quais os benefícios que o Movimento da Fé tem trazido para o povo de Deus? John Ankerberg e John Weldon dizem o seguinte[27]:

Considere o Movimento da Fé. Ele trouxe unidade e maturidade - ou divisão e imaturidade - para o corpo de Cristo? Ele trouxe divisão e imaturidade. Por quê? Porque os pregadores da Fé não ensinam doutrina. Pois, se a ensinassem, nem sequer existiria um "Movimento da Fé (ANKERBERG; WELDON, 1993, p.24)

Isso pode ser facilmente constatado pelos “frutos” deixados pelo curso Rhema de Kenneth Hagin, que já dividiu igrejas, fragmentou irmãos e por prática e costume corriqueiro se dedicam incansavelmente a assediar os membros de outras igrejas e denominações para que façam o seu curso, Rhema, quebrando princípios éticos, morais e acima de tudo doutrinários da Sagrada Escritura, que alicerçam seus ensinos na “teologia” do Movimento da Fé.

Por outro lado, concordamos plenamente com Hank Hanegraaff que afirma que apesar deste movimento ser sectário, é também composto por algumas pessoas sinceras, amáveis e que de fato nasceram de novo. Algumas dessas pessoas buscam viver uma vida piedosa em Cristo. Contudo, é difícil viver uma vida bíblica quando os seus alicerces doutrinários não são bíblicos.

Ainda que o Movimento da Fé seja inegavelmente sectário - e que grupos particulares dentro do movimento sejam nitidamente seitas - deve-se salientar que existem muitos crentes sinceros e nascidos de novo dentro desse movimento. Não posso exagerar ao enfatizar esse ponto crucial. Esses crentes, em sua maior parte, mostram-se totalmente alheios à teologia sectária do movimento.
Tenho encontrado pessoalmente diversas pessoas queridas que se enquadram nessa categoria. Não questiono sua fé nem sua devoção a Cristo. Eles integram aquele segmento do Movimento da Fé que, por alguma razão, não compreenderam nem internalizaram os ensinamentos heréticos apresentados pela liderança de seus respectivos grupos. Em muitas instâncias, são novos convertidos ao cristianismo que ainda não se firmaram bem na fé. Mas nem sempre é este o caso. (HANEGRAAFF, 1996, p.43)[28]

Por último, a problemática do Movimento da Fé é apresentada por Hank Hanegraaff[29] da seguinte forma:

O verdadeiro Cristo e a verdadeira fé bíblica estão sendo rapidamente substituídos por alternativas doentias, oferecidas por um grupo de mestres que pertencem ao denominado “Movimento da Fé”.
Este câncer vem sendo alimentado por uma constante dieta que poderia ser chamada de “cristianismo das refeições rápidas” - belas na aparência, mas fracas em substância. Os provedores dessa dieta cancerígena têm utilizado o poder das ondas de rádio e televisão, bem como uma pletora de livros e fitas criteriosa e agradavelmente embalados, a fim de atrair suas presas para o jantar. E os desavisados têm sido chamados a amar não o Mestre, mas aquele que está na mesa do Mestre. (HANEGRAAFF, 1996, p.14)[30]

Ainda, John Ankerberg e John Weldon dizem o seguinte:

O Movimento da "Fé" acredita que a mente e a língua humanas contêm uma habilidade ou poder sobrenatural. Quando alguém fala, expressando a sua fé em leis supostamente divinas, seus pensamentos e expressão verbal positivos produzem uma "força" supostamente divina que irá curar, proporcionar riqueza, trazer sucesso e, de outras maneiras, influenciar o ambiente. (ANKERBERG;WELDON, 1993, p.11)[31]

Finalizamos agradecendo ao Senhor Deus, porque mediante a ação do Espírito Santo tem se tornado cada vez mais frequente o número de pessoas que têm seus olhos e ouvidos abertos para a verdade da Palavra de Deus e buscado correção para as suas distorções.






[1] DAUGHERTY, Billy Joe. O poder de suas palavras. Rio de Janeiro: Graça, 2004.

[2] HAGIN, Kenneth E. ZOE: A Própria Vida de Deus. Rio de Janeiro: Graça Editorial.

[3] Idem.

[4] Idem.

[5] E. W. Kenyon. Disponível em: . Acesso em: 26 nov 2013.

[6] Maharishi Mahesh Yogi. Disponível em: . Acesso em: 26 nov 2013.

[7] Hinduísmo/História. Disponível em: . Acesso em: 26 nov 2013.

[8] Om. Disponível em: < http://pt.wikipedia.org/wiki/Om>. Acesso em: 26 nov 2013.

[9] Os Sons da Vida. Disponível em: . Acesso em: 26 nov 2013.

[10] Os Fundamentos do Hinduísmo. Swami Bhaskarananda.

[11] Centro de Treinamento Bíblico Rhema. Disponível em: . Acesso em: 26 nov 2013.

[12] HAGIN, Kenneth E. ZOE: A Própria Vida de Deus. Rio de Janeiro: Graça Editorial. p.51.

[13] Idem. p.55.

[14] PAULK, Earl. Satan Unmasked. Georgia: Earl Paulk Ministries, 1984. p.97

[15] COPELAND, Kenneth. Take Time To Pray - Believer’s Voice of Victory. 1987. p. 9

[16] PRAISE-A-THON. Produção de Benny Hinn, Santa Ana, CA: Trinity Broadcasting Network, 6 de novembro de 1990. NTSC, son., color.

[17] PRAISE-A-THON. Produção de Benny Hinn, Santa Ana, CA: Trinity Broadcasting Network, 12 de janeiro de 1990. NTSC, son., color.

[18] BILLHEIMER, Paul E. Seu destino é o trono. São José dos Campos: CLC Editora, s/d. p.32

[19] ROBINSON, Edward. Léxico Grego do Novo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.

[20] GINGRICH, F. Wilbur; DANKER, Frederick. Léxico do N.T. Grego/Português. São Paulo: Vida Nova, 2000.

[21] TAYLOR, W. C. Dicionário do NT Grego. Rio de Janeiro: JUERP, 1991.

[22] Idem.

[23] COENEN, Lothar; BROWN, Colin. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2009.

[24] Idem.

[25] Idem.

[26] ROMEIRO, Paulo. SUPER CRENTES: O evangelho segundo Kenneth Hagin, Valnice Milhomens e os profetas da prosperidade. São Paulo: Mundo Cristão, 2007.

[27] ANKERBERG, John; WELDON, John. Os Fatos sobre o Movimento da Fé. Porto Alegre: Chamada da Meia-Noite, 1993.

[28] HANEGRAAFF, Hank. Cristianismo em Crise. Rio de Janeiro: CPAD, 1996.

[29] Idem.

[30] Idem.

[31] Idem.

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